Aleatoriedade É diferenciação
Estratégia é o que sobra quando você tira o óbvio
Uma das principais atribuições da estratégia é encontrar e manifestar diferenciação.
Mas essa busca, apesar de óbvia, não é tão simples.
Na prática, por medo de se afastar de potenciais clientes ou de tomar uma decisão que diminua o retorno pros acionistas, muitas vezes o processo criativo fica travado.
Olhamos benchmarks e cases de sucesso buscando uma validação prévia do que pode estar dando certo. Fazemos uma swot tentando mapear atributos únicos da empresa. Analisamos relatórios de tendências com intuito de estar a frente do nosso tempo e assim encontrar a diferenciação antes do concorrente.
O problema é que as chances de todo o mercado estar fazendo algo muito parecido é muito alta.
E é aqui que entra a aleatoriedade.
O que são aleatoriedades
Aqui tô chamando de aleatoriedades assuntos ou interesses que temos, mas que não tem uma ligação direta muito clara com nossa profissão ou com o que esperam de nós na sociedade.
São aleatórias por que vem com a gente meio que de berço, a gente não consegue explicar muito bem por que tem essas curiosidades. Só tem.
No meu caso eu sempre curti video games, física (apesar de entender quase nada mesmo tentando), filosofia e produção musical.
Eu demorei um tempo até ter confiança pra colocar essas coisas pra jogo. Até que num projeto eu fiz uma metáfora usando Lênin. Depois peguei um conceito de League of Legends e apliquei num framework de estratégia da empresa. Depois mostrei como o processo criativo do Kendrick Lamar poderia ajudar a fazer e comunicar uma estratégia.
São coisas que num primeiro momento deixam os companheiros de trabalho desconfortáveis, mas que destravam perguntas e, principalmente, escolhas.
Diferenciar é dar contraste
Aqui caímos numa contradição muito comum. Quando falamos de identidade, quase sempre somos direcionados a esconder nossas aleatoriedades, mas são exatamente elas que, quando nutridas, criam nossa assinatura criativa, nosso jeito de fazer as coisas.
Durante a adolescência e o início da fase adulta, tudo encaixota. O uniforme, os horários e as palestras. Depois o jeito de se portar na entrevista, o corte de cabelo e a roupa certa. Ninguém quer saber como um rapper underground te ajudou a se manter vivo.
Só depois de alguns bons anos de carreira e de vida adulta a gente começa a se dar conta das nossas aleatoriedades como elementos de contraste que são bem-vindos e bem vistos em alguns lugares.
Mas mesmo assim ainda não são todos.
Se você falar numa entrevista que seu mais recente hiperfoco tem sido a Putologia Avançada ou a revolução que pode ser Arc Raiders, é mais provável você perder pontos do que ganhar.
E aqui pra mim tá a chave da coisa.
São essas aleatoriedades que criam conexões diferentes, não ortodoxas. Essas conexões não óbvias criam bolsões de potenciais diferenciações.
É só na encruzilhada entre o óbvio e o não óbvio que nasce coisa boa. É a graça na estratégia.
E é por isso que abraçar nossa aleatoriedade é estratégico pra nós, no CPF.
Quanto mais escondemos ou segregamos nossas aleatoriedades, mais expostos e em risco ficamos.
Recomendo aqui a leitura de Pele negra, Máscaras brancas, do Frantz Fanon. Nele eu aprendi o que significa não levar meu jeito de falar pras reuniões por que era “linguajar de favelado”.
Esconder nossas aleatoriedades não é só uma escolha estética ou de carreira. É uma engrenagem do sistema que precisa que a gente pareça intercambiável pra poder nos precificar como commodity.
Abraçar a aleatoriedade, então, não é vaidade. É estratégia de classe.
O preço de se despir do contraste
Em novembro de 2019, a Harvard Business Review publicou o artigo "The Costs of Code-Switching", assinado por cinco pesquisadores de universidades americanas.
Eles definem code-switching como o ato de ajustar estilo de fala, aparência, comportamento e expressão de modo a otimizar o conforto dos outros em troca de tratamento justo, qualidade de serviço e oportunidades de emprego.
A pesquisa mostra que profissionais negros e de outras minorias diminuem sua filiação a um grupo racial estigmatizado para aumentar a percepção de profissionalismo e a probabilidade de serem promovidos ou contratados e que esse esforço cobra um preço alto: esgota recursos cognitivos, prejudica a performance, reduz a expressão autêntica e contribui para o burnout.
Em outras palavras: o que o ambiente corporativo apresenta como "boa comunicação" ou "postura profissional" é, na prática, uma exigência de embranquecimento performático que adoece quem precisa cumpri-la.
Desculpa te incomodar
O filme Sorry to Bother You (2018) traduziu esse debate em uma cena que ficou icônica e ajudou a trazer o conceito de volta ao debate racial nos Estados Unidos.
Cassius Green, o protagonista negro, não consegue vender nada no novo emprego de telemarketing até que um colega negro sugere: "use sua voz branca".
A partir do momento em que ele adota uma voz dublada por um ator branco suas vendas explodem e ele começa a subir na empresa. O filme mostra de forma quase didática que o que está em jogo não é técnica de venda, e sim a aceitabilidade racial do timbre, da gíria, do jeito de falar.
A ascensão profissional do personagem está literalmente condicionada ao apagamento sonoro de sua negritude.
Lélia Gonzalez: o pretuguês como evidência
Lélia Gonzalez já havia atacado o problema por outro ângulo décadas antes, num ensaio chamado “Racismo e sexismo na cultura brasileira”. Nele, ela cunha o conceito de pretuguês: a tese de que o português falado no Brasil é estruturalmente africanizado, e que a “norma culta” europeia é uma ficção que precisa apagar continuamente a presença negra para se sustentar.
Gonzalez observava que traços considerados “erros” pelos manuais de português (a ausência do “l” em “framengo”, “pranta”, “Frorinda”) não são desvios, mas marcas linguísticas africanas incorporadas ao português brasileiro pela boca dos escravizados e seus descendentes.
O que se chama de “falar errado” é, na verdade, falar com a marca da história.
Quando uma reunião proíbe a gíria em nome do “bom português”, está policiando justamente esse rastro e, ao fazê-lo, reencena o gesto colonial de tratar a oralidade negra como deficiência a ser corrigida, e não como repertório legítimo.
Usei a lente do racismo aqui, mas poderíamos usar a lente das mulheres, ou LGBTQIAPN+, ou artistas. A real é que tudo que soa estranho volta pra nós como uma ameaça velada.
Cada conexão estranha que você faz entre o seu trampo e o rapper underground, o videogame, a física de boteco, a putologia avançada, é um ativo que ninguém mais tem. É o que te torna não-replicável.
E, num mercado que tá cada vez mais empenhado em transformar trabalhadores em peças, ser não-replicável é valioso demais.
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Quando passam uma vida te polindo pra adequar... é difícil agora voltar ao mercado e não saber mais quem eu sou, principalmente agora, emigrando! Achei muito interessante o que trouxe. Como fazemos para abraçar nossas aleatoriedades e nos fortalecer no processo? Fico com essa questão :)