Crisenautas
Como florescer quando o chão não para de tremer
A crise não vai embora mais. Já percebeu?
Eu me lembro de que quando eu era mais novo, criança dos anos 90, meus pais passaram por muita coisa difícil. Lembro de momentos onde a comida foi pouca e momentos de muita bonança.
Mas apesar dos altos e baixos, tinha uma certa aura de melhora. De que “já já passa”. E passava, eu acho.
A geração pós segunda guerra viveu um período de bem viver. Foi quando surgiram os estados de bem estar social (que claro que só existiram por conta de muita exploração e roubo em outras nações).
A crise virou a nossa atmosfera
A Naomi Klein (cito muito ela aqui, né?) fala sobre a doutrina de choque, acentuada depois de 11 de setembro. Um modelo de gestão social baseado no estado de exceção “necessário” para lidar com momentos de muito caos.
Nesse espaço entre “o que não podia, por lei” e o “mas durante esse período pode”, o tecido social vai se alargando e normalizando coisas que até então seriam absurdas.
O problema é que a crise não vai embora.
Sentimos essa vertigem coletiva, essa sensação de que o mundo está constantemente "fora dos trilhos". É aquele mal-estar sutil — ou nem tanto — de olhar para os lados e perceber que as instituições, os manuais de carreira e as certezas políticas são tipo sapatos de papel na chuva.
É um empilhamento de crises e colapsos. Luta em cima de batalha.
Duas coisas me fazem pensar que viveremos ainda muitos anos nessa lógica:
todos os motores de tendência na sociedade atualmente apontam para um aumento na volatilidade e na tensão entre polos;
a vida midiática cada vez mais na nossa cara, acelerada por conteúdos de I.A., não vai deixar a gente em paz mesmo que perto de nós esteja tudo bem.
Então viramos Crisenautas
Como se já não bastasse sermos o homo midiaticus, agora temos também que navegar continuamente de uma crise pra outra.
Nauta é o sufixo que a gente usa pra falar que alguém navega naquela coisa/assunto.
Astronauta, psiconauta, cosmonauta, aeronauta. Crisenauta. Pegou a ideia?
Navegamos num oceano de crises onde os portos constantemente deixam de existir.
Isso aqui é extremamente antinatural e desconfortável pra gente, se você assim como eu também é geração Y.
Aquela história que nós nos formamos pra empregos que nem existem mais.
Queríamos um trabalho legal que desse pra viver confortável, se aposentar e se divertir no processo. Ganhamos o maior amasso salarial e a maior concentração de capital da vida moderna junto com o esfarelamento do mercado de trabalho.
Isso requer de nós uma reorganização da nossa postura existencial e organizativa.
Se um crisenauta bem sucedido é um mestre da oscilação, qual a identidade nasce do aceite dessa realidade?
Eu acredito que um futuro melhor há de vir, mas enquanto isso, vamos ter que navegar.
Aqui vão algumas ideias e brisas pra esses tempos de crise:
Ideias de como agir e pensar
Se estamos falando de estratégia e, nesse caso, mais especificamente em estratégia pessoal, não adianta só “internalizar a ideia do crisenauta”. Aqui vão algumas ideias de reorganizações.
Identidade pelo ponto de vista
Se nossa identidade não vem mais do trabalho ou da posição social, minha sugestão é que ela venha do nosso ponto de vista sobre o mundo e sobre os problemas que enxergamos.
Esse ponto de vista pode seguir a gente por toda a vida, independente do trabalho que temos.
O meu é sobre estratégia ser pra todo mundo.
O do Calma, Urgente é sobre “conversas urgentes para serem tratadas com calma”.
Nesse modelo mental não há problema em abandonar uma ideia e começar outra. Tudo é adubo pro rizoma.
E aqui eu trago essa outra ideia, a do rizoma
Rizoma Estratégico
O problema é que fomos treinados para construir prédios: estruturas rígidas, hierárquicas, que buscam o céu através de uma base fixa. Mas, no meio de constantes catástrofes, prédios desabam. Enquanto crisenautas precisamos aprender a lógica do rizoma.
(Pegando esse conceito emprestado de Deleuze E Guatarri) o rizoma é como a grama ou certas ervas daninhas que você conhece: ele não tem um centro único. Ele se espalha horizontalmente, conectando pontos que parecem não ter relação entre si. Se você corta um pedaço de um rizoma em um canto, ele ressurge no outro, ainda mais forte.
Operar de forma rizomática significa entender que sua segurança não vem de um cargo ou de uma ferramenta específica, mas da qualidade das suas conexões e da sua capacidade de brotar em novos terrenos quando o antigo se torna tóxico ou estéril.
Nesse cenário, a nossa maior inspiração pode vir de um lugar improvável: as ruínas. O cogumelo matsutake tem ganhado holofotes por conta do livro O Cogumelo do Fim do Mundo.
Ele floresce justamente em florestas degradadas, em solos onde a atividade humana industrial e passou e deixou apenas destroços. O matsutake mostra que é possível criar valor e beleza no meio do que sobrou.
Pra nós, isso significa que não precisamos de um plano perfeito de dez anos, mas de um “rizoma estratégico fértil”.
Territorializar novos territórios no digital
Esses rizomas que vamos criando, nossos terrenos estratégicos, vão abrindo o mapa do território digital.
Lembra do Age of Empires? Lembra que no mapa era tudo escuro e iam aparecendo coisas conforme você explorava?
O digital é algo assim, mas temos a sensação de que o território tá todo tomado por big techs.
MAS NÃO TÁ!
Alguns exemplos prático de novos territórios sendo criados bem na nossa frente (tanto pro bem quanto pro mal):
Canal novo, fresquinho, com conteúdos fodas sobre filosofia da tecnologia. Aposto que vai crescer muito esse ano. ⬇️
Na leitura de cenário e tendências de 2026 eu pontuei a repactuação da dívida americana através de instrumentos digitais. Aqui embaixo tem um video recente do Andrei Jikh mostrando como isso tá se manifestando e como pode virar nosso futuro em breve.
É a construção de mais uma parte do território digital em favor da concentração de capital nas mãos dos tech bros.
Esse artigo não é uma peça publicitária, mas claramente tá ligada com a forma como eu penso o mundo e seus problemas.
É a partir desse tipo de lente que eu faço a minha estratégia pessoal e ajudo outras pessoas a fazerem o mesmo.
Caso tenha ressoado contigo e queira conhecer um pouco mais sobre isso ⬇️
Obrigado Rohan Patrick McDonald pela autorização do uso da ilustra no artigo.






