Mate seu impostor
As 3 correntes que te impedem de sair da inércia
Você já foi num circo? Num que tivesse um elefante?
Geralmente o elefante tá lá preso com uma cordinha bem frágil numa estaca de madeira no meio do picadeiro e, ainda assim, ele fica imóvel, dócil. Ou, pior, nem corda tem mais.
Ele podia acabar com tudo com um movimento só, mas ele nem sequer tenta.
O mais perturbador dessa história é que, apesar de eu estar falando do elefante do circo, ela é sobre mim, sobre você e sobre a maior parte dos trabalhadores que a gente conhece.
Se o elefante é tão mais forte do que aquela corda que tá prendendo ele, o que exatamente o mantém ali?
A resposta é bem assustadora.
Se quiser ver o video no youtube onde eu disseco essa ideia ao invés de ler essa news, fique à vontade ⬇️
Quando ele era um bebê elefante, ele era preso por correntes muito mais fortes. Sempre que tentava fugir, ele era agredido. Mesmo quando não era agredido, aquela corrente o segurava e o trazia de volta para aquele espaço minúsculo dentro da lona. Ele cresceu tentando e falhando tantas vezes que, em algum momento, simplesmente desistiu.
Com o tempo, o bicho internalizou que não ia conseguir. Ele parou de lutar. Hoje, ele cresceu, ficou gigante e tem uma força descomunal, mas quem manda nele é a sua memória psicológica. A corrente não ficou mais forte ou mais pesada; ele é que parou de tentar.
É aqui que a história do elefante se conecta perfeitamente com você, comigo e com os profissionais ao nosso redor. A nossa corrente do trabalho moderno não é uma só. São três condicionamentos que a lógica do mercado colocou na gente tão cedo, e por tanto tempo, que a gente nem lembra de testar se eles ainda estão ali segurando o nosso movimento.
A primeira corrente: A Fragmentação
Ela começa com uma frase que você provavelmente já ouviu e até já repetiu para si mesmo: “Você tem que se especializar, porque o profissional pato (que nada, voa e anda, mas não faz nada direito) não vai ter espaço no mercado e vai ganhar menos”.
Esse conselho parece cheio de bom senso, mas na prática essa frase é a nossa estaca de madeira. O mundo corporativo verticalizou as nossas habilidades e dividiu as disciplinas porque essa eficiência faz sentido para as empresas.
Ter o RH, o marketing, a tecnologia e o produto em departamentos completamente separados é ótimo para a engrenagem do mercado, mas não necessariamente para a nossa vida.
O problema central é que a gente leva essa regra para casa. Passamos a achar que não podemos mais misturar nossos interesses, nossas habilidades de escrita, curiosidades aleatórias ou trabalhos manuais porque isso faria de nós profissionais estranhos ou genéricos demais. Com isso, perdemos a capacidade de imaginar um caminho onde tudo caminhe junto.
Quando você não se vê como um todo, você perde a capacidade de se diferenciar. E quando você não se diferencia, você vira uma commodity. No mercado, a commodity aceita o preço que pagam por ela, sem margem para negociar.
A segunda corrente: A Exportação
Digamos que você consiga quebrar essa primeira barreira mental da fragmentação e finalmente passe a se enxergar por inteiro. Existe uma segunda corrente à espreita, ainda mais silenciosa, porque ela rouba algo que está com a gente há anos sem que a gente perceba. Eu chamo isso de corrente de exportação.
Pense em tudo o que você já fez no seu trabalho, não importa se você tem 1, 5 ou 10 anos de carreira. Toda semana você resolve um monte de problemas complexos, apaga incêndios gigantescos e cria soluções inteligentes. O detalhe é que nada disso fica para você. Todo o resultado desse esforço intelectual fica na empresa. A não ser que você seja designer, é provável que você não tenha sequer um portfólio para provar o que fez.
Vamos fazer uma conta que dói. Se ao longo de 10 anos de carreira, a cada 6 meses, você tivesse registrado e extraído um framework, um método de trabalho ou um artigo que fosse, hoje você teria pelo menos uns 20 ativos no território digital. Esses ativos poderiam estar gerando novos clientes, outras oportunidades de emprego, um infoproduto, um curso ou apenas trazendo para perto de você pessoas que pensam parecido e gostam da sua forma de enxergar o mundo.
Uma boa parte da nossa síndrome do impostor mora exatamente aí. Não é que a gente não tenha valor, nós temos muito. Só que a gente se acostumou a só perceber esse valor em reuniões aleatórias onde alguém elogia um slide, ou naquela sessão de feedback semestral onde a liderança decide se você merece ou não uma promoção.
Como a gente vai perdendo o contato diário com o registro do nosso valor, passamos a acreditar que não temos valor nenhum. O impostor faz a festa e nos mantém quietinhos no canto.
A terceira corrente: A Cegueira do Espectro
Vencidas as duas primeiras correntes, você decide: “Beleza, vou criar um espaço meu no digital”. É bem nesse momento que a terceira corrente mental te puxa para trás. Ela é a mais traiçoeira porque se disfarça perfeitamente de bom senso.
Você abre o Instagram ou qualquer outra rede para postar algo próprio que finalmente teve coragem de produzir. Na mesma hora, vem aquela voz interna: “Será que eu devo? Vão falar mal de mim? Eu não tenho nada de novo para falar, todo mundo já disse isso. Para que vou postar se vai dar no máximo 10 visualizações?”.
E aí você trava. Na nossa cabeça, se for para criar algo na internet, tem que ser para estourar, virar um influenciador com milhões de seguidores e ficar rico da noite para o dia, senão é melhor nem tentar.
De onde vem essa régua absurda? Ela vem de anos consumindo o digital sob uma lógica de mercado que divide o mundo entre o consumidor passivo e o superstar da internet. O ecossistema digital parece inundado por promessas de enriquecimento em cinco dias, automações milagrosas com inteligência artificial e cópias de produtos validados.
Quando você tenta e vê que a realidade não é assim, você se frustra e se convence de que o certo era não ter tentado nada.
Isso é uma cegueira literal. O mundo digital não é 8 ou 80. Esse espectro tem muito mais nuance, parecido com as cores que a gente não consegue enxergar a olho nu, mas que estão lá. Estamos usando aquela viseira de cavalo que só deixa olhar para uma direção.
Nesse espectro real, existe espaço para tudo. Tem o profissional com 50 seguidores focados que consegue fechar ótimos negócios, apresentar seu portfólio para as pessoas certas, trocar ideia com profissionais de outras empresas e achar um sócio.
Você não precisa de 5 milhões de pessoas te seguindo para construir algo interessante. Você não precisa ficar milionário, mas você precisa e deve expandir seus horizontes.
A cegueira do espectro fecha as suas opções até que só reste uma: aceitar ser apenas um empregado e pronto.
O diagnóstico cruel e o Reenvolvimento
Repare no impacto que a junção dessas três correntes causa na nossa vida:
A fragmentação tira a sua identidade e te comoditiza, reduzindo seu poder de barganha.
A exportação te deixa sem ativos tangíveis e te faz sentir menor do que você é, diminuindo ainda mais seu valor de mercado.
A cegueira do espectro fecha as suas perspectivas até sobrar apenas o emprego formal como alternativa de sobrevivência.
O resultado é cruel. Acabamos verticalizados, precarizados e transformados em puros consumidores dentro de um mercado que exige cada vez mais escopo, pagando menos grana e entregando menos estabilidade.
Isso não é uma crítica à CLT. Muito pelo contrário, sou um grande fã da CLT e entendo que ela é uma conquista histórica e fundamental da nossa classe. O problema real é a lógica de mercado que distorceu essa estrutura para amassar a nossa identidade.
Para tentar resolver esse problema em mim e nas pessoas mais próximas, eu desenhei o R.E.P: Reenvolvimento Estratégico Pessoal. Na minha visão, a estratégia é um campo criativo que precisa ser popularizado. Ela não deveria ser apenas um termo técnico guardado em livros acadêmicos ou usado por diretorias de grandes empresas.
Pegando carona no pensamento do mestre quilombola Nego Bispo, o que eu busco com o R.E.P é mudar as palavras pelas quais a gente se organiza. Se no modelo corporativo tradicional a gente se desenvolve, ou seja, a gente para de se envolver , o que eu proponho é que a gente se reenvolva.
Que a gente recupere a nossa identidade por inteiro, os trabalhos que a gente já construiu e a capacidade de fincar nossa bandeira em um território digital que seja verdadeiramente nosso.
Se libertar dessas amarras dá vertigem. Quando você percebe que a corda é frágil e que você pode se mover, a sensação é de estar na beira de um abismo. Olhar para esse espaço dá medo, e é exatamente por isso que caminhar acompanhado faz toda a diferença. Ter alguém por perto para dividir os erros, os aprendizados e as vergonhas tira o peso do processo.
O objetivo final não é uma promessa vazia de riqueza rápida. O objetivo é construir um espaço no digital onde você tenha tesão intelectual para falar e escrever sobre o que gosta, conectando-se com pessoas que compartilham da mesma visão de mundo.
Se isso gerar novos negócios, clientes ou transições de carreira — o que frequentemente acontece —, ótimo. Mas a mentalidade não pode ser a de um tiro curto de 100 metros; criar consistência no digital está muito mais para uma maratona de 42 km, onde os primeiros quilômetros exigem paciência.
Se esse texto te fez olhar para as suas próprias correntes, considera dar uma olhada no trabalho que eu já desenvolvi aqui no substack, o que tem rolado no Instagram e no youtube.
E, caso queira esse acompanhamento mais próximo, o R.E.P. pode ser pra você.








Genial! Aqui tu foi cirúrgico